Arquivo | janeiro, 2017

Centro x subúrbio

4 jan

Aqui no Canadá a discussão sobre morar no “centro” (no nosso caso, Toronto) ou no “subúrbio” (que para nós seria o ABC ou interior de São Paulo) é constante. Canadense que é canadense mora em casa, e não em apartamento, e portanto geralmente não mora no centro, onde há muito mais apartamentos do que casas – e as casas que existem ou são pequenas e velhas ou são grandes e velhas, mas sempre muito caras. Toronto, principalmente downtown, com seus arranha-céus super modernos, é para os recém-chegados, estudantes, solteiros ou casais sem filhos.

Claro que toda regra tem sua exceção, e tudo depende da sua cultura e personalidade, mas no geral é assim que realmente as coisas funcionam por aqui. Não dá para fugir muito disso, a não ser que você seja bem rico e possa comprar e reformar uma casa na região do High Park – mas, mesmo assim, vai ter que ter paciência para enfrentar o trânsito e o tumulto de downtown.

Eu nasci e cresci em São Paulo, e sempre morei em apartamento. Super prático e seguro. Fácil de limpar, você entra e sai pela garagem e corre menos risco de ser assaltado; quando viaja, é só trancar a porta de casa e pronto! E em São Paulo eu tinha tudo ao meu alcance – restaurantes, cinemas, teatros, shoppings, casas de shows, escolas, faculdades e “as melhores empresas para se trabalhar”. O único “detalhe” é que eu odiava o trânsito e tinha pavor de ser assaltada (já tinha sido 3 vezes).

Quando cheguei no Canadá, não tive dúvida: fui morar num apartamento em downtown e, como a cidade era segura e tinha transporte público de qualidade, nem pensei em ter um carro. Andei 3 anos a pé e de metrô, na maior alegria, debaixo de sol, chuva, vento ou neve. Explorei todos os cantos de downtown, inclusive o PATH (caminhos subterrâneos super úteis no inverno). E o apartamento era super fácil de limpar, além de ter uma vista linda para o lago e para a CN Tower. E quando eu precisava viajar, erá só bater a porta e pronto!

Só que aí decidimos ficar mais tempo no novo país. A qualidade de vida e a segurança nos motivaram a não voltar ao Brasil, como tínhamos planejado no começo. E então veio a discussão se não seria melhor nos mudar para uma casa no subúrbio. Eu não queria, adorava o centro, o agito, a bagunça e o movimento das ruas. Lá eu não me sentia sozinha, porque estava cercada de lojas, restaurantes, cinemas, teatros, pontos turísticos e amigos que trabalhavam ou moravam por ali. Por outro lado, com dois filhos o espaço estava ficando pequeno dentro do apartamento… Minha sala já tinha virado uma brinquedoteca e, além disso, precisávamos de mais um ou dois quartos para acomodar bem as crianças e nossos familiares quando viessem nos visitar.

Como eu trabalho em esquema “home office”, a distância de Toronto não me afetaria e, melhor ainda, eu teria mais espaço para montar meu escritório. E como o marido disse que não ligava em ter que ir para o centro todos os dias para trabalhar, poi pegaria o trem, que é super rápido e confortável, resolvemos comprar uma casa no subúrbio, numa cidade gracinha chamada Oakville, que fica a mais ou menos 30 km de downtown.

Este mês vai fazer 1 ano que nos mudamos para a casa de Oakville e estamos curtindo muito tudo por aqui. Confesso que ainda sinto saudades de Toronto, da vista do apartamento, de andar a pé pelas ruas movimentadas do centro, de caminhar à beira do lago, de ver a CN Tower todos os dias. Vou lá sempre que posso. Mas em questão de conforto, espaço e privacidade, não dá para comparar: morar em casa “no interior” é muito melhor, mais tranquilo e mais aconchegante. E as crianças estão mais felizes, podem brincar na rua, espalhar seus brinquedos no basement da casa, fazer o quanto de barulho quiserem, chamar seus amiguinhos para brincar a qualquer hora. Uma infância que eu não tive, não conheci, mas que me parece mais divertida e saudável.

Tem muitos outros pontos a comparar entre casa x apartamento, principalmente em relação ao trabalho de limpeza interna e externa (no inverno, a neve; no outono, as folhas; no verão, a grama; na primavera, as flores do jardim), mas é tudo tão prático de se fazer que acaba virando uma diversão – ainda mais quando seu marido curte cuidar da casa :-)! E quanto a andar a pé, de fato não dá pra fazer quase nada sem carro por aqui, pois as distâncias são maiores, mas como não tem trânsito isso também acaba sendo irrelevante.

Enfim, me rendi ao estilo de vida canadense, e posso dizer que estou gostando! Para mim, o importante na vida é estar aberto a mudanças, conhecer realidades diferentes, experimentar o novo, e saber que o bom e o ruim, o melhor e o pior, o certo e o errado são sempre relativos e dependem de cada fase da sua vida.

 

Amigos

3 jan

Nos últimos 3 ou 4 anos aprendi o verdadeiro valor dos amigos. Tendo crescido numa família grande, cercada por pai, mãe, irmão, primos, tios, tias, avô, avós, cachorro, periquito e papagaio, o tempo para os amigos acabava ficando curto demais. Os compromissos com a família eram sempre muitos, afinal toda semana tinha aniversário, formatura, batizado, casamento, chegada ou despedida de alguém, depois Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Natal, Reveillon… E assim mais um ano se passava, e começava tudo de novo. E a família estava sempre lá, para o que desse e viesse, nas horas felizes e tristes, te apoiando e te salvando sempre.

Até que veio a mudança de país. Primeiro, a sensação de liberdade, independência, de finalmente fazer tudo do nosso jeito, de ter o nosso espaço, nossa casa, nossa rotina e nosso próprio planejamento de vida. Depois, o medo de enfrentar tudo sozinhos, sem o apoio de ninguém da família. O vazio dos finais de semana sem compromisso, a falta de alguém para compartilhar nossas conquistas, contar nossas aventuras e nossas histórias felizes ou tristes. Tudo novo, diferente, desconhecido. Se um filho ficasse doente, não ia ter nenhuma tia ou avó para ajudar a cuidar dele. Se um de nós, ou os dois, ficássemos doentes então, não ia ter mãe, tia ou avó que preparasse aquela canja de galinha especial. Quem nos salvaria, então?

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Foi aí que percebi a importância dos amigos. Ah sim, os amigos! Novos, diferentes,  desconhecidos, mas sinceros, solidários e cheios de amor para dar e receber. Amigos que nos trariam canja de galinha quando ficássemos doentes, amigos que carregariam nossa mudança nas costas quando fôssemos nos mudar para uma casa nova, que cuidariam dos nossos filhos quando precisássemos fazer coisas ou ir a algum lugar sem eles, que nos dessem dicas e nos mostrassem os caminhos mais fáceis de chegar aonde precisávamos, que nos dessem palavras de apoio e incentivo quando nos sentíssemos fracos e cansados, que nos fizessem companhia em nossos aniversários, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Natal e Reveillon… E que também nos deixassem ajudá-los quando precisassem e nos recebessem em suas casas e festas de aniversário de braços e corações abertos e que, principalmente, nos fizessem aprender a respeitar as diferenças e a olhar e a cuidar mais do próximo.

Amigos que são, hoje, a nossa nova família! Que preenchem boa parte da nossa alma e diminuem imensamente a saudade constante que sentimos da nossa família, mas que também aumentam a saudade dos nossos amigos de infância, adolescência e trabalho, que viveram centenas de momentos especiais conosco e que gostaríamos muito que estivessem ao nosso lado de novo.

Ah, os amigos…