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Mãe é mãe

5 fev

Só mesmo sendo mãe pra gente entender a nossa mãe e, mais do que nunca, querer ela por perto.

É impressionante como lembro da minha mãe, todos os dias, em cada situação que passo para criar a minha filha. Me pego repetindo dezenas de atitudes e frases da minha mãe, conselhos, explicações, respostas… Aliás, respostas é o que mais preciso ter para esclarecer todos os porquês da minha pequena de 3 anos de idade. Meu Deus, e como ela faz perguntas!

Alguns exemplos, só para ilustrar o repertório da senhorita Giovanna: Por que no frio a gente tem que pôr casaco pra não ficar doente? Por que no seu quarto tem um banheiro dentro e no meu não? Por que quando a pessoa não trabalha não tem dinheiro para ter uma casa? Por que as crianças têm que ir todo dia à escola? Por que eu tenho que dormir sozinha e você junto com o papai (se eu te adoro tanto, mamãe?)? Por que a gente mora no Canadá? Por que no Brasil as pessoas falam português e no Canadá falam inglês? Por que água faz a gente fazer xixi e comida faz fazer cocô?

Nossa, como lembro da minha mãe me explicando os porquês dos porquês, sem barreiras, sem segredos, sem mitos. Para ela, toda hora era hora de conversar, de aconselhar, de instruir. Ela nunca teve preguiça ou medo de responder a uma só dúvida minha e muito menos de mostrar o que ela achava que estava certo e errado.

Por isso é importante haver a presença da mãe (ou de alguém que a substitua) na criação de um filho. Muitos dos problemas e questionamentos dos adolescentes e adultos são fruto da “falta de mãe”. Mas não basta apenas ter uma mãe por perto; é preciso que ela participe de tudo, oriente seu filho e, acima de tudo, dialogue com ele. Não serve ser aquela mãe que fica a maior parte do tempo no celular, no laptop ou na TV, ou mesmo se ocupando dos afazeres domésticos, enquanto “alguém” cuida do seu filho – tem que pôr a mão na massa, dar banho, trocar, escovar os dentes, fazer comida, levar na escola, passear, ver desenho animado, montar quebra-cabeças, ler muitos livros, ensinar a rezar, passar noites em claro protegendo o filho de uma febre ou mesmo de um pesadelo, brigar para fazê-lo entender as consequências de seus atos. Esses momentos são únicos e essenciais para a formação do caráter dos pequenos. E não há satisfação maior em vê-los começando a fazer seus julgamentos e análises, tirando conclusões, fazendo descobertas – tudo com base no que a mãe (e o pai, claro) lhe ensinaram. Não que eles tenham que pensar e agir como nós, mas se usarem o que ouviram de nós para formular seus pensamentos e trilhar seus caminhos já vai estar bom demais.

Agora que a chegada do meu segundo filho está próxima, penso ainda mais na minha mãe. Desta vez, quero ela bem pertinho, me ajudando, me apoiando, aguentando minhas reclamações e ouvindo ainda mais todas as minhas aflições. Afinal, não é porque já sou mãe de um que não tenho medo de ser  mãe pela segunda vez. A angústia e a ansiedade são ainda maiores, porque sei bem todos os desafios que estão por vir. Tem vezes que o desconhecido é mais fácil de ser enfrentado…

Desta vez, quero deixar minha mãe me proteger, me dar conselhos, cuidar de mim, se intrometer na decoração do quarto do bebê, no tipo de parto que devo fazer, nos horários que devo amamentar, nas roupas que devo vestir nele, no que devo comer, o que devo falar e fazer, e tudo mais o que ela quiser! Há quem vá dizer que quero isso porque estou morando longe dela, que seu estivesse todos os dias perto eu ia enjoar de tanta “superproteção” e “palpite”. Ou seja, vão dizer que  a gente “só sente falta de alguma coisa quando não tem”. 

Pode até ser isso, mas pode ser também porque estou um pouco mais madura depois de 17 meses vivendo em outro país, sem ninguém para me ajudar nas horas do aperto (tirando alguns poucos e super queridos amigos e, óbvio, o maridão). Aqui não tem a “mamãe” ou o “papai” para adivinhar meus pensamentos e me trazer uma canja quentinha quando estou gripada, pra se oferecer de ficar com a minha filha enquanto vou ao cabeleireiro ou pra passar em casa com um pãozinho fresquinho quando a preguiça me impede até de pensar.

A vida real é dura e cruel. Mas tem suas recompensas e vantagens. No mínimo, nos faz crescer, nos fortalece e nos ensina a dar valor a quem e ao que realmente merece.