Engraçado como alguns pequenos acontecimentos fazem o nosso dia, ou até mesmo a vida, valer mais a pena.
Eu já comentei em algum post anterior sobre uma moça que trabalha entregando jornal de manhã numa esquina aqui perto de casa. Acho que ela é filipina. Todos os dias a gente se vê, ela me entrega o jornal, pergunta como estou e brinca com a Gigi (que, para o meu constrangimento, quase nunca olha para ela nem sorri ou diz olá). Mas a moça – agora sei o nome dela, Cherryl – nunca desiste e todo santo dia tenta tirar um olhar ou palavra da Gigi.
O caminho da escola nunca é o mesmo quando a Cherryl não está lá.
No dia em que a Gi fez 3 anos, contei para a Cherryl que estava feliz porque era aniversário da minha filha e coisa e tal. Num outro dia, ela me perguntou quanto a Gigi calçava. Me contou que, depois que entrega o jornal, vai para seu segundo trabalho, o hipermercado Walmart. E disse que tinha visto um sapatinho lindo lá e que queria comprar para a Gigi.
Fiquei pensativa. Como poderia a Cherryl gostar tanto da minha filha, que nem sequer olha para ela? Resolvi retribuir o carinho e levei para ela uma caixinha de Bis, do Brasil. A moça quase engasgou de surpresa e emoção. Quando eu já estava na outra esquina, uma senhora me chamou e disse: “Eu vi o que você fez, e foi realmente lindo. Essa moça é um doce de pessoa e mereceu seu gesto.”
Ganhei o dia. E refleti sobre a importância de olhar para o próximo, o que tenho percebido que os canadenses fazem muito. A vida fica mais doce assim, ainda mais na minha situação, em que estou longe do meu país, das pessoas que conheço desde que nasci. Até lembrei de uma grande amiga minha de infância que sempre me dizia que os amigos eram a família dela. Eu não entendia direito aquela frase, achava um pouco exagerada, porque sempre tive família grande, mas agora percebo o sentido do que ela dizia.
Para finalizar, eis que hoje a Cherryl nos para e entrega uma sacolinha para a Gigi. Pela primeira vez, a Gigi levantou os olhos para ela, pegou o presente e disse: “Thank you”. Mais para frente, pediu para sentar num banco e abrir o presente, que vinha com um lindo cartão de feliz aniversário atrasado. A Gigi adorou o sapato, pois era das princesas, e quis vestir na hora. Foi toda feliz para a escola.
E acho que deixou a Cherryl mais feliz ainda. A moça entregadora de jornal, quando me viu passando de volta, disse: “Eu simplemesmente gosto da sua filha. Ela é linda, e seus olhos e cabelos me chamam muito a atenção”.
Lindos são a alma e o coração da Cherryl. E, acima de tudo, sua persistência em consquistar o olhar de uma criança.
